Agenda de Bolsonaro mostra preferência por conversas com o próprio partido e os filhos

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© EVARISTO SA via Getty Images Dos 87 parlamentares recebidos pelo presidente desde o início do mandato, 19 são do próprio partido.

Com uma postura inicial de aversão ao diálogo direto com parlamentares, o presidente Jair Bolsonaro se viu obrigado, nas últimas semanas, a flexibilizar o relacionamento com os ex-colegas de Congresso em um esforço para aprovar a reforma da Previdência.

Só neste mês, o ex-deputado recebeu integrantes de 14 siglas – na última quarta-feira (10), foram 22 deputados e senadores, de acordo com a agenda oficial divulgada pelo Palácio do Planalto.

Um levantamento feito pelo HuffPost Brasil a partir dos dados oficiais mostra, no entanto, que a diversidade entre os convidados para o terceiro andar da sede da Presidência é recente.

Desde janeiro, o PSL, partido do presidente, vinha sendo priorizado – o que não contribui com os esforços de articulação. Dos 87 parlamentares recebidos desde o início do ano, 19 são da sigla, o equivalente a 21,8%. Na Câmara, a legenda, com 54 integrantes, representa 10,5% dos 513 deputados.

Em segundo lugar no ranking por partidos, aparece o PSD: 11,5% dos parlamentares recebidos por Bolsonaro pertencem à sigla, que conta com uma bancada de 36 membros na Câmara (7% do total) e tem como presidente Gilberto Kassab, secretário da Casa Civil no governo de João Doria, em São Paulo. Entre os integrantes da legenda, o deputado Delegado Éder Mauro (PSD-PA), aliado do capitão da reserva nos tempos de Congresso, está entre os mais assíduos nas visitas.

Na sequência dos partidos mais recebidos pelo presidente, aparecem MDB, PR e Podemos e PRB.

Bolsonaro prioriza PSL em reuniões no Planalto

Entre os contemplados do PSL, estão dois filhos do capitão da reserva, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Acusado de envolvimento em um esquema de laranjas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Flávio foi o terceiro parlamentar mais recebido por Bolsonaro, atrás apenas do líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), e da líder do governo no Congresso, Joice Hasselman (PSL-SP).

Preferidos do presidente

Em três registros na agenda oficial, não constam outras pessoas nas reuniões de Flávio com o pai, nos dias 3 de janeiro, 18 de fevereiro e 29 de março. O senador também participou de encontros com Major Vitor Hugo e com os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Paulo Guedes (Economia), Santos Cruz (Secretaria-Geral) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional).

Na visita mais recente, na última quarta-feira (10), o parlamentar estava acompanhado do senador Eduardo Gomes (MDB-TO) e da cientista Alia Al Mansoori, dos Emirados Árabes Unidos. Ele também participou da comitiva presidencial que visitou Israel em março.

As reuniões com Eduardo Bolsonaro foram mais escassas. Há dois registros em 18 de janeiro, um com o ministro Ernesto Araújo (Relações Internacionais) e outro com os executivos Rubens Menin e Douglas Tavolaro, responsáveis pela CNN no Brasil.

Entre os contemplados do PSL estão também personagens determinantes na campanha eleitoral, como o deputado Luciano Bivar (PSL-PE), presidente da legenda.

Um dos encontros foi em 19 de fevereiro, um dia após Gustavo Bebianno ser demitido do comando da Secretaria de Governo, acusado de envolvimento em esquema de candidaturas laranja pela sigla.

Eleito com o nome de “Hélio Bolsonaro”, o deputado Hélio Lopes (PSL-RJ, por sua vez, está em três registros da agenda oficial, sendo um deles em 20 de março, dia em que a reforma da Previdência dos militares foi enviada ao Congresso. Na reunião, estavam também o vice-presidente, Hamilton Mourão, ministros e comandantes das Forças Armadas, além do Major Vitor Hugo e dos deputados Coronel Armando (PSL-SC) e General Girão (PSL-RN).

Campeão nas urnas em 2018, o parlamentar também conhecido como “Hélio Negão” negou por diversas vezes que o presidente fosse racista. “No PSL do racista Bolsonaro, um negro foi o mais votado no Estado do Rio de Janeiro”, escreveu em foto com Jair após as eleições.

Com origem nas Forças Armadas, o parlamentar teria como atribuição atuar na articulação pelas mudanças na aposentadorias dos militares, mas o projeto de lei está parado desde que chegou à Câmara.

Outra integrante do PLS a visitar o Planalto foi a senadora Selma Arruda (PSL-MT), em 22 de fevereiro e em 20 de março. Na última quarta-feira, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) cassou o mandato da parlamentar por omitir da Justiça Eleitoral despesas de R$ 1,2 milhão na campanha de 2018, configurando caixa dois e abuso de poder econômico. Ela disse que iria recorrer.

Apesar de contemplar 19 nomes do PSL, as reuniões no Planalto não incluíram o líder da legenda na Câmara, Delegado Waldir (PSL-GO), que tem criticado tanto a articulação política quanto a reforma da Previdência. Outros integrantes da bancada também têm ressalvas às mudanças nas regras de aposentadoria.

Bolsonaro se envolve na articulação política

Vice-líder do governo no Congresso, Bia Kicis (PSL-DF) nega que as siglas da base tenham sido deixadas de lado. De acordo com ela, uma explicação para a agenda mais restrita no início do ano era a recuperação do presidente das cirurgias após o atentado que sofreu em setembro.

“Ele estava recebendo menos parlamentar até pela condição de saúde dele, ainda estava em recuperação. Estava podendo trabalhar, digamos, a metade do potencial dele”, afirmou ao HuffPost Brasil.

Segundo a parlamentar, Bolsonaro está mais aberto nas últimas semanas porque teria ficado claro que o governo não irá oferecer cargos em troca de votos no Congresso, o que teria deixado o ex-deputado mais à vontade para se reunir com deputados e senadores.

“Muitos parlamentares estavam se queixando, dizendo que queriam ter mais acesso ao presidente e ele resolveu receber as pessoas porque ficou muito claro que não vai ter entrega de cargos, essas coisas, então ele está disposto a receber e ter um relacionamento harmônico com o Congresso”, afirmou.

Líder do governo no Congresso, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) confirmou nesta semana que Bolsonaro irá participar dos esforços para aprovação da reforma da Previdência.

“É o novo ciclo político. Os partidos não participam da equipe ministerial. Os partidos se identificam pelos temas, vão votar ou não de acordo com os interesses das agendas, por isso vai exigir a presença do presidente à frente da articulação política”, afirmou a jornalistas na última quarta-feira, após reunião no Planalto.

Em 3 meses, 3 encontros com Rodrigo Maia

A multiplicação das reuniões em abril foi uma resposta a semanas de trocas de farpas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em um cenário de queixas dos parlamentares sobre a postura do governo. Uma das reclamações eram as críticas de Bolsonaro à velha política.

O democrata foi recebido 3 vezes pelo chefe do Executivo, número inferior às interações com o presidente do Senado. Alcolumbre esteve 7 vezes no Planalto, sendo duas delas antes da conturbada eleição para a Presidência do Senado, em 2 de fevereiro. Nas duas reuniões, ele estava acompanhado do ministro Onyx Lorenzoni.

Diante das dificuldades em aprovar as mudanças nas regras de aposentadoria sem uma melhora na relação com o Legislativo, Bolsonaro decidiu suavizar o discurso e flexibilizar a agenda.

Em 4 de abril, foram iniciadas as reuniões com presidentes e lideranças de partidos. Nesse dia, 17 parlamentares foram ao Palácio do Planalto. O ex-deputado teve 5 reuniões com integrantes do PRB, PSD, PSDB, PP e MDB, além de um encontro separado com os deputados Vinícius Carvalho (PRB/SP) e Márcio Marinho (PRB-BA).

As audiências continuaram na última semana, com membros do PR e do Solidariedade na terça-feira (9). No dia seguinte, foi a vez de parlamentares do Podemos, Novo, Avante e PSC.

Na quarta-feira (10), Bolsonaro também recebeu deputados e senadores do PSD, MDB, DEM, PR, PSDB e do PT, principal partido criticado por ele na campanha. O senador Paulo Rocha (PT-PA) e o deputado Beto Faro (PT-PA) participaram de reunião com outros políticos do Pará, incluindo o governador, Helder Barbalho.

Em outro aceno a opositores, o governo convidou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), líder da oposição no Senado, a participar de cerimônia de inauguração de aeroporto em Macapá (AP).

De acordo com o parlamentar, o convite foi feito pelo Ministério das relações Exteriores, via e-mail e ele viajou em voo comercial. “Reafirmo os princípios da oposição ditos desde o início desse governo: não seremos situação automática, mas também não queremos fazer oposição sistemática”, disse Randolfe, em nota.

Fonte: msn.com