Aluna da UFPB faz placa de formatura sozinha: ‘deixar um pouco de mim’

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Tâmara Duarte fez a placa de formatura sozinha, na licenciatura de francês, na UFPB — Foto: Tâmara Duarte/Arquivo Pessoal

Quem passa pelos corredores do Centro de Ciências, Humanas, Letras e Artes (CCHLA) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, pode observar uma série de placas de formatura que marcam a conclusão do ciclo de uma turma. Mas há quem também se surpreenda. É que uma das placas estranha pelo ineditismo. Tâmara Duarte de Medeiros se formou em Letras – Francês, mas era a única concluinte no ano do encerramento e, por isso, resolveu fazer a placa sozinha. “Precisava deixar um pouco de mim para os meus amigos na universidade, nessa universidade que tirou tanto de mim, de certa maneira”, declarou.

Essa história começa na França, onde Tâmara, de 40 anos, também mora atualmente. Ela tem dupla nacionalidade e, em Paris, a paraibana se formou em Comércio Internacional ou, em francês, Management des Unités Commerciales (ISEFAC).

Em 2010 voltou para o Brasil para dar andamento ao divórcio. A melhor maneira que encontrou para expressar a dor dessa separação que, para ela, ainda era latente, foi se dedicar a algum projeto. “E como eu adoro aprender, adoro estar nesse ciclo de aprendizagem e tudo mais, ao invés de procurar conversar, escolhi me cultivar, peguei essa mania dos franceses”, explica.

Então se inscreveu no vestibular – que na época ainda acontecia pelo Processo Seletivo Seriado (PSS), e escolheu a licenciatura de francês. Já morava na França desde 1997, portanto, o curso era a escolha perfeita para a reciclagem que procurava. “Queria me reciclar, mudar de profissão, eu estava envelhecendo e na área do comércio é muito puxado, as pessoas são muito dinâmicas e eu não ia ter tanta energia para a concorrência anos seguintes”, enfatiza.

Fez o vestibular e passou em 1º lugar. “Fiquei impressionada, porque fazia tempo que eu não pegava nos livros”, ressalta. Começou o estudos em 2011 e foi, cada vez mais, se apaixonando pelo curso. No entanto, quando o divórcio, enfim, saiu, ela se viu na necessidade de tomar uma decisão: voltar para França ou ficar no Brasil.

Ficou no Brasil ainda por mais um ano, já que fazia tempo que não via a família. Usou esse período para abrir uma escola de idioma. Esse empreendimento começou com um convite de dar aulas para o batalhão do exército que se preparava para ir ao Haiti. Com as aulas, outras pessoas começaram a se interessar. Por isso, abriu um Centro de Línguas em Bayeux, que também se tornou um cursinho preparatório para o vestibular. O custo era acessível e os professores, ela conta, eram muito conhecidos na Grande João Pessoa. Dos 15 estudantes que se inscreveram no cursinho, três passaram em primeiro lugar no vestibular.

Conexão Brasil-França

Quando passou o vestibular, fechou a escola e voltou para a França. Trancou o curso de francês para cuidar melhor da vida na Europa. Lá, continuou a trabalhar na área anterior. “Mas dizem que quando a educação te pega, ela não solta mais. Eu estava lá no meu mundo de negociadora, mas estava a educação me chamando, me chamando para voltar”, conta. Decidiu retomar o curso e ficou, até a conclusão, entre idas e vindas, uma eterna conexão Brasil-França. Quando tinha férias, voltava, quando começava as aulas, retornava para o Brasil.

Por isso a licenciatura durou tanto tempo. Escolheu o Brasil para fazê-la porque precisava manter um pouco da identidade. “Queria ter um diploma dado pelo Brasil, esse lado brasileiro meu, sentia essa necessidade”. Ela conta que durante o curso, muitas pessoas desistiram ou abandonaram. “Da turma inteira de 2011, só se formaram três pessoas”, disse. E como fez tantas idas e vindas, acabou perdendo o contato com os colegas.

‘Achava que era meu mérito’

Tâmara se formou sozinha em 2018. Por isso, tomou a decisão que, por ter tido uma história muito bonita com o curso, seguiria todas as tradições, ainda que sozinha.

“Eu escolhi fazer a placa sozinha porque eu achava que era meu mérito, eu queria deixar um pouco de mim na universidade, já que dei sete anos da minha vida a isso. Então eu queria deixar um pouco de mim para pessoas que conviveram comigo”, destaca.

Fez uma mini-festa após a defesa do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), caprichou na despedida e decidiu também fazer a placa. “Eu não sabia como lidar com isso. Pedi autorização à universidade, escolhi o lugar e foi colocada lá”, conta. “Amo a língua francesa, sou apaixonada pela França, sou apaixonada pela linguística, literatura francesa, pela cultura, e percebi que na universidade, durante esse tempo todo, não tinha nenhuma placa de francês”, completa.

Quando chegou na empresa para fazer a placa, foi indagada se realmente tinha certeza que gostaria de fazer isso, embora outras pessoas já tivessem feito a mesma coisa com a empresa. A foto já estava escolhida, os professores homenageados também já estavam anotados e a roupa inspirada em Coco Chanel já estava separada. Escolheu a cor preta, pela elegância da sobriedade, e em junho de 2018 fixou a placa no CCHLA. O sonho custou um preço, literalmente, alto. Mas ela diz que valeu a pena.

A repercussão foi muito maior do que ela esperava. Aliás, Tâmara jamais esperou que a placa dela teria sequer uma repercussão. Assim que fixou a placa, voltou para a França para começar o mestrado. Viu toda a repercussão pela internet, através de amigos. “Foram reações positivas, as pessoas admiraram o gesto, ficaram surpresos também”, conta. A foto da placa passou por todas as redes sociais e grupos. Os colegas chegaram a dizer que muitas pessoas se inspiraram em fazer o mesmo.

Em agosto de 2018 foi a última vez que esteve em terras brasileiras. Hoje Tâmara faz mestrado “Master Langage, Langues, Textes, Sociétés”, na Université Sorbonne-Nouvelle Paris 3 e ano que vem já pretende começar o doutorado. O objetivo é seguir a carreira acadêmica. “Eu acho que é uma ótima profissão para alguém que gosta de ler, que gosta de criar, pesquisar, sempre estar aprendendo. Ser professora universitária se encaixa perfeitamente com a minha personalidade. Vou ser muito feliz profissionalmente falando”, declara.

G1